No primeiro dia de ensaio desse novo processo, eu cheguei com muita preguiça. Dirijo o grupo há três peças, três anos, três fomentos e de repente chegou o momento de mudar de posição, deitar no chão e começar a atuar.

Já de cara, estava com um princípio de gastrite, estresse e rabugentismo a dar com pau. A proposta dessa primeira etapa era investigar a sombra individual, e então passei a usar esse meu mau-humor como ferramenta. A partir de um exercício de coluna de animais, reproduzindo a coluna de um macaco, comecei a construir o “Zé Baiano” (como foi batizado por crianças do Parque da Luz). Ele está sempre reclamando, com indisposições estomacais e uma mania autoritária de controlar o que estava acontecendo. Uma boa forma de me livrar da herança de dirigir o grupo e brincar com um papel que começava a se grudar em mim.

A ele foram somadas figuras criadas de diversas cores. Exercício que já tinha feito com a própria Silvia há uns bons anos atrás. Inclusive passei isso pro IVO um dia e fui um pouco ridicularizado. Porque a idéia é “respirar uma cor” e desenvolver o estado e as imagens que surgem disso. Que bom que agora temos uma pessoa mais experiente, distanciada dos pequenos vícios do dia-a-dia e com energia pra permitir que todos se aprofundem.

Admito que essa parte não foi das mais intensas pra mim. Talvez por já ter feito, talvez por ter uma válvula de escape tremenda pra minha imaginação que é o Berlam.

Mas com o tempo e com o jogo, se formaram ótimas ferramentas pra acrescentar ao meu xodó: o “Zé Baiano”.

A voz de escapamento da figura - que logo associei e fui pesquisar nas músicas do Seu Jorge - me trouxe alguns problemas e um excesso de cansaço físico e vocal que eu não estava acostumado na minha antiga função. Isso me desgastou muito e por pouco não tirou o prazer de fazer tudo isso.

Mas é um registro tão diferente de qualquer coisa que já fiz que abriu um canal para batucar, cantar sambas e realizar vontades que tenho há muito tempo. O encontro com as outras figuras foi tipo um aquecimento. Fazia tempo que não jogava em cena com os parceiros do grupo, estava um pouco destreinado e talvez um pouco distante de todos. Com o tempo as afinidades de personagens me colocaram ao lado do Locão, uma certa personalidade complementar ao Zé Baiano: passivo e engraçado.

Nas intervenções, busquei e acabei tendo mais contato com os outros personagens e com o público local. Ainda me apeguei ao nariz vermelho, já que para mim o palhaço é a base desse trabalho.

Sinto que todos esses personagens e figuras tem um poder muito curativo e são uma grande válvula de escape. Não só pra nós, mas para o público também. Senti uma liberdade na intervenção de poder cutucar as feridas e levar a loucura das pessoas ao redor ao extremo, de vivenciar emoções no limite: muito ódio, muita preguiça, muito medo. Rindo e andando na corda bamba. O Zé baiano é bamba e pau pra toda obra.

Bora toca esse bando, “caralho”!