Do processo
ou

A sombra interior

De meu contato com a “História da Feiúra” do Eco até as intervenções que realizamos no Parque da Luz nos dias 25 e 26 de outubro de 2008, vão se simplórios quatro meses. Quatro meses muito longos e profundos.

O processo que estamos vivendo parece que aprofunda algumas questões fundamentais do IVO 60, tanto dentro do processo artístico do grupo quanto no que tangem à organização e ao modo de produção (que, em última análise, são indissociáveis). A mobilização interna e externa que a condução de Silvia Leblon e a proposta de pesquisar a sombra que espreita o interior de cada um de nós causou foi muito grande.

Comecemos do início: o palhaço.

Sigo acreditando – como acreditei quando o IVO fez suas primeiras incursões no universo do “clown” – que, como técnica, o palhaço tem um papel extremamente saudável para o trabalho a que nos propomos desde que nos unimos há oito anos atrás. A relação que o ator estabelece com o público no jogo do palhaço pode ser vista como um estado de revelação de mecanismos estruturais pela via da sensibilização, matéria à qual o IVO 60 dedicou toda a sua pesquisa até hoje. Vejamos: “pesquisar a intersecção entre o Teatro Épico e a Improvisação”, “formar espectadores consiste também em estimular os indivíduos (de todas as idades) a ocupar seu lugar não somente no teatro, mas no mundo”, “dirigir-se ao público por meio de coros e canções, anti-ilusionismo”, “platéias e situações em que ‘pulsa’ o tema da peça, e o sentido se completa no momento exato da apresentação por meio da improvisação”, “criar uma relação horizontal”, “IVO 60 X Espetáculo”1. São palavras nossas de onde se pode deduzir uma ‘linha de pesquisa’, não?
Em tempo: não, não tenho desejo de fazer uma peça de palhaço; minhas figuras até aqui não estão neste universo, mas vejo, ainda mais agora com as últimas conversas e saídas, uma força enorme da pesquisa pessoal da Silvia sobre o que quer que venha a ser o resultado deste processo.
E as ‘qualidades’. Ah! as ‘qualidades’... São uma nomenclatura para esses estados – corporais, espirituais, comportamentais – que encontramos ao longo dos quatro meses encerrados na sala da Cardoso de Almeida.

Cada um com sua dúzia de ‘qualidades’.

Eu com as minhas (momento suuuuper pessoal do registro, ui!).

Meu caderninho de capa azul está mergulhado nas ‘qualidades’. O Carrapato, o Monstrão, o Pedreiro, o Amarelo (coitado, não tem nome), o Do Cobertô, o Capitão, o Padre, o Seu João (ou Seu Osvaldo, vai saber!) e o último, mas não menos importante, o Jacaré. Nunca configuraram realmente personagens, são propriamente momentos. Momentos de fúria ou imbecilidade, de esperteza ou displicência, poder ou loucura. Alguns momentos parecem vir do mesmo lugar, dialogam e, por vezes, se completam. Tenho a impressão de que, por exemplo, o Carrapato e o Seu João vêm do mesmo lugar: Itirapina; e o Monstrão e o Pedreiro, do meu fígado (rá!, acabei fazendo uma citação à Xica).
Já tocando a continuidade do trabalho, não vejo outra forma de essas qualidades-momentos se fortalecerem e gerarem dramaturgia sem colocá-las, como estamos fazendo agora, em relação direta com o espaço do Parque e seu público.
A sombra interior, a minha sombra interior, continua bem escondida. Não sei se ela está aí, óbvia, mas sinto que está surgindo. Sinto também que esta primeira fase do trabalho me trouxe consciência de pontos muito importantes para o meu trabalho de ator. Taí: o trabalho de ator do IVO ganhou contornos totalmente inusitados neste novo processo. Bem, era evidente que desejado que isso acontecesse, para tanto chamamos a Silvia.
E o trabalho do ator ivesco tende a se intensificar, gerando, então, novas questões. Por onde agora? Mímesis, jogo, corpo, voz, banda?
Acredito que mais saídas sejam a melhor forma de avaliar qual o próximo passo. Mas será que isso não seria já um próximo passo?

Das intervenções
ou

A Luz no fim do túnel

O conflito ou a dicotomia entre estarmos juntos ou separados na hora da saída, entre fazer cena e estar no parque, entre misturar-se com os freqüentadores ou estabelecer a convenção teatral. Sei lá se isso faz sentido, mas acho que esses conflitos não devem nos interessar. Pelo menos não agora.
Realmente estou desinteressado pela dramaturgia, pela estrutura. Acho que este é o momento de experimentarmos no Parque, de criarmos relações com o espaço, com as pessoas, com a cidade. É a famosa hora de abrir, de levantar material. Escolhas são feitas a toda hora, na cena, no jogo, na relação. Por isso acho que não é ainda a hora de fazermos escolhas quanto à estrutura.
Estou um pouco confuso ainda quanto às intervenções: quando estamos no parque as ‘qualidades’ viram personagens, não porque queremos, mas porque o público tem a liberdade de nos caracterizar, de nos identificar, alguns até nos dão nomes.
Essa relação de liberdade com a platéia (pessoas reais, que estão naquele parque todos os dias, donos do espaço, donos da cidade) transforma mesmo as relações que eu tinha com minhas ‘qualidades’. Hoje, por exemplo, quero um guarda-chuva, mais óculos, uma calça, uma voz que marque mais o velho Seu João, uma forma de me defender, uma coluna mais definida para o Capitão, uma arma para ele, talvez.
Me apavora a idéia de ter que resolver cena. Trabalho de encenação. Temos tempo pra isso mais tarde.
Quero antes a delícia de experimentar números – de música, malabarismo, mágica, teatro, por que não? – diante de um público que, até agora, se mostrou pronto a participar de números!
(Bandeira: “Quero beber, cantar asneiras / no esto brutal da bebedeiras / que tudo emborca e faz em caco / Evoé, Baco!”).

Bem, não muito mais a acrescentar.

Notinha: anseio por cenarinhos e figurininhos.

Parece que o mergulho apenas começou. Ou, em outras, esta é apenas a ponta do iceberg.

Vamos, que dia 16 está aí.