Prólogo

Há muitos assuntos e reflexões derivadas dessa primeira etapa de intervenções finalizada hoje no Parque da Luz. Como esse texto tem o desafio de ser para reflexão interna (IVO) e externa (blog), terei que, por um lado, esclarecer coisas que o IVO já sabe, por outro, me aprofundar em questões que para a agilidade de um blog/site talvez fique meio over. Mas, tentarei ser o menos chato possível para ambas as partes.

Breve descrição do meu processo

É difícil estabelecer na prática quando começou esse processo. A relação com Silvia foi se aprofundando no final do nosso último projeto de fomento, a vontade foi de aprofundar ainda mais, e ela acabou se tornando nossa diretora. Como essa mudança de papel foi durante, então na verdade esse processo desenvolveu coisas que já vínhamos começando.

Uma das coisas mais interessantes e estimulantes é o pleno exercício de liberdade que Silvia nos propõe. Genericamente, estamos trabalhando o universo da feiúra, que é amplo. Feio é tudo aquilo que está fora de lugar, torto, estranho, que é sombra, enfim (não me estenderei sobre o conceito aqui). Nesse início, o foco foi nossas “sombras internas”. Para isso, havia exercícios de estímulo. (animais, cores) que serviam para dar vazão a diferentes qualidades/personas que estão na nossa sombra.

A proposta, porém, nunca foi trabalhar o desagradável. Pelo contrário: tudo o que criávamos partia do nosso prazer de fazer a coisa, o que, pelo menos para mim, permitiu aliar intensidade e humor. Por mais que às vezes eu estivesse no lugar da tristeza, da raiva, da paranóia, havia o prazer disso estar sendo revelado, de eu estar livre para jogar com isso, expressar, enfim. Nem sei se essa ficha caiu durante, mas foi caindo nessa reta final.

Aos poucos, foi ficando claro que nossa intervenção não teria qualquer história, qualquer marcação, qualquer certo e errado. Seríamos nós que sairíamos pelo parque, estabelecendo relações com pessoas, com o espaço e entre nós mesmos. Enfim, intervindo.

Não haveria o discurso racional ou mesmo a comédia popular a que estávamos acostumados. Sim, inevitavelmente, estaríamos construindo algum discurso. Sim, poderia ser engraçado. Mas era diferente, estávamos dando espaço para o estranho, para o erro, para o sutil, enfim, muitas coisas que na amplitude das peças que fazíamos não fariam muito sentido, mas que agora, são essenciais para a profundidade do trabalho.

Outra característica dessa primeira etapa foi o trabalho em sala. O objetivo era fortalecer essas figuras antes de sair para jogar com o público. Nossa primeira saída, então, acabou acontecendo só na quinta-feira passada (dois dias antes da primeira intervenção). E a sensação foi de cair de para quedas num espaço que não precisava de nós. Geramos estranhamento, estabelecemos relações, mas foi tudo muito rápido, o espaço que escolhemos para ficar do parque era de passagem, enfim, nada de grande se estabeleceu. Mas tinha que se estabelecer? Sinto que às vezes me falta e nos falta uma paciência de estar em processo. O ensaio de quinta-feira foi nosso primeiro contato com o parque, mas, por estarmos a dois dias de uma intervenção divulgada, para a qual convidaríamos pessoas, sinto que a sensação era de que não tínhamos nada “assistível”. Como as pessoas saberiam que começou? Como terminaríamos? Como chamaríamos as pessoas para o debate na seqüência?

No sábado, combinamos que sairíamos fazendo bagunça, para que as pessoas soubessem que algo de estranho começara. Depois, dispersaríamos e voltaríamos a nos encontrar para fazer uma nova bagunça e voltar pra “casa de chá” (nossa base no parque da Luz), onde se daria o debate. Mas o debate acabou acontecendo entre a equipe. Quando não se trata exatamente de uma peça, a resposta nós vemos na relação com as pessoas. Claro, há muito o que se analisar. Mas, da forma como saímos, as pessoas aproximavam-se, davam suas opiniões, e nós respondíamos como estávamos. Se a peça não tinha uma estrutura tradicional (afinal, era uma intervenção), porque o debate teria? O fato é que individualmente e coletivamente, a troca aconteceu.

A bagunça inicial a qual nos propusemos no sábado teve sua dor e delícia: por um lado, já saí quente, e meu jogo interno, as mudanças de estado, minhas respostas estavam muito ágeis e sinceras. Por outro lado, o jogo foi acelerado demais, quase agressivo para um parque cujo tempo ritmo é lento e pacato.

Isso gerou o fato de, no dia seguinte (domingo), a proposta ter sido sair cada um na sua, mais receptivo do que ativo. Foi, como proposta de intervenção num espaço, o mais interessante, para nós e para o público. A impressão é que recebíamos e dávamos com a generosidade que o espaço e seu público merecem. Por outro lado, na questão das qualidades trabalhadas em sala, meu jogo foi mais limitado. Uma figura se sobressaiu às outras para o jogo ser mais suave. Talvez, também, por eu ter me relacionado mais com o público que com os outros atores, e o público estar muito simpático, minhas energias mais agressivas e catárticas não tiveram tanta necessidade de vazão. Mesmo assim, refletindo depois e lembrando de alguns momentos específicos, sinto que eu deveria estar com mais amplitude de personagens. Isso não chegou a fazer falta, mas talvez eu não tenha explorado todo o potencial do que trabalhamos.

Bom, estamos ainda em processo, mas já há conclusões que vou tirando, e caminhos que mais me atraem. Como conclusão, a principal ficha que cai é o prazer de ser livre, e a dificuldade que isso gera. Só aí já há material para longos processos.

Como caminho, tínhamos nos proposto de entrar para a segunda fase de intervenção no processo de mímese. E de fato, temos um rico e frutífero nicho no parque da luz para isso. Porém, o tempo que teremos para a próxima intervenção, o pedido do administrador do parque para apresentarmos algo no aniversário do parque no meio do caminho e a sensação que não realizamos plenamente o potencial do que vínhamos trabalhando, me faz querer nessa segunda etapa aprofundar técnicas de jogo, foco e cena com essas figuras que já temos, e desenvolvê-las ainda mais. E, no ano que vem, começarmos o processo de mimese, que haverá de render e muito.