SOBRE AGORA
ou
“A dor e a delícia de ser o que é”
ou
“Não existiria luz se não fosse a escuridão”


Entro no site do meu querido grupo de teatro e vejo os depoimentos de meus colegas sobre o nosso novo processo. E após o meu nome segue parênteses onde se lê “em breve” (mas agora que você está lendo este texto já não está mais assim, pois ele é o que viria em breve e agora é presente... e em breve será passado. Fecha parênteses).
Não me lembro de sentir tanta dificuldade em começar a escrever um texto como desta vez. Talvez porque nunca tenha sentido tanta dificuldade em um processo como desta vez. Ou talvez porque a última dificuldade sempre parece a maior... E minha memória curta se esquece de lembrar que todos os processos de criação foram um pouco doloridos. Ou são. E é preciso paciência.
O que me impulsiona a escrever é um paralelo entre a dificuldade e o adiamento deste texto e a dificuldade e o adiamento do meu processo dentro deste processo coletivo. A vida é aqui e agora, o teatro é aqui e agora e o teatro que estamos pesquisando é mais aqui e agora ainda... É improviso, é impulso, é relação com quem está e com o espaço que é. “É o que é”, como diz nossa diretora Silvia. Não tem antes nem depois nem psicologia nem gênese nem personagem nem texto nem nada a não ser nós (ou atores), as pessoas no parque (ou público), tempo e espaço.
Adio o texto por quê? Porque não sei o que dizer. Porque estou insegura e confusa. Mas então revelo minha confusão, ora bolas! E é isso. “É o que é”. Por que não? Talvez porque quero ser relevante, conseqüente, consistente. Quero que o texto fique bom e tenho medo do fracasso. Fracasso é sombra. Logo, é medo da sombra. E medo também é sombra. E adio o texto - ou a cena - e deixo passar a oportunidade de revelar minha confusão, meu medo, minha insegurança, meu fracasso... Minha sombra. E rir disso! Como é sedutora e libertadora essa possibilidade. Mas é difícil. Talvez porque penso e sinto demais e assusta estar com os pensamentos e sentimentos desorganizados. Pode ser paralisante quando não se está acostumado. Sinto-me paralisada muitas vezes neste processo. Paro porque não sei o que fazer. Quando talvez não seja necessário saber o que fazer, apenas fazer. Talvez não saiba fazer isso.
Mas não quero parar. Porque o tempo continua mesmo quando você pára. E não se pode adiar tudo. Ou melhor: não se pode adiar nada. Chega a hora do ensaio, chega a hora da intervenção, chega a hora de debater a intervenção e logo chega o fim do projeto... Projeto que virou realidade. Aqui e agora. E as coisas vão acontecer, mesmo sem mim. Mesmo que eu apenas finja estar, eu estarei. Então, que eu trate de estar inteira.
Tenho refletido muito sobre a função de ator. “Um fazedor de ações”, diz a Silvia. É preciso começar, fazer, mover o corpo, senão a gravidade ganha: o repouso, a paralisia, a preguiça. “Tudo é dança, tudo é música”. É um ofício encantador, mas ao mesmo tempo cheio de aparentes contradições um tanto aflitivas: é ter disciplina e ter prazer. Condenados a buscar sempre o prazer, condenados a se divertir sempre. É se entregar e não pensar, mas sem pirar. É colocar as próprias emoções no trabalho, mas não é terapia. É algum lugar no meio disso tudo, onde eu ainda me perco e me procuro. Mas não estou sozinha.
E vejo luz no fim do túnel em pequenos momentos. Como no reencontro com o senhor do parque que inspirou um poema quando por lá passamos em 2006. E ele segue gritando pequenas frases cheias de sentido: “Você não pode gostar de mim! Eu sou doido!”. E o nosso teatro joga suas luzes sobre ele, mesmo sem refletores.


PS: Preciso dizer algo que contém um palavrão, será que pega mal pôr no site? Silvia disse pra eu dizer “foda-se”. E eu preciso dizer o quão aliviante foi dizer “foda-se” e escrever livremente. Como será bom dizer “foda-se” e atuar livremente. Ainda que cheia de reticências, “ou” e “talvez”, e com apenas uma afirmação tranqüilizadora na cabeça: “só sei que nada sei”. E foda-se.


AGORA (Arnaldo Antunes)

AGORA QUE AGORA É NUNCA
AGORA POSSO RECUAR
AGORA SINTO MINHA TUMBA
AGORA O PEITO A RETUMBAR

AGORA A ÚLTIMA RESPOSTA
AGORA QUARTOS DE HOSPITAIS
AGORA ABREM UMA PORTA
AGORA NÃO SE CHORA MAIS

AGORA A CHUVA EVAPORA
AGORA AINDA NÃO CHOVEU
AGORA TENHO MAIS MEMÓRIA
AGORA TENHO O QUE FOI MEU

AGORA PASSA A PAISAGEM
AGORA NÃO ME DESPEDI
AGORA COMPRO UMA PASSAGEM
AGORA AINDA ESTOU DAQUI

AGORA SINTO MUITA SEDE
AGORA JÁ É MADRUGADA
AGORA DIANTE DA PAREDE
AGORA FALTA UMA PALAVRA

AGORA O VENTO NO CABELO
AGORA TODA MINHA ROUPA
AGORA VOLTA PRO NOVELO
AGORA A LÍNGUA EM MINHA BOCA

AGORA MEU AVÔ JÁ VIVE
AGORA MEU FILHO NASCEU
AGORA O FILHO QUE NÃO TIVE
AGORA A CRIANÇA SOU EU

AGORA SINTO UM GOSTO DOCE
AGORA VEJO A COR AZUL
AGORA A MÃO DE QUEM ME TROUXE
AGORA É SÓ MEU CORPO NU

AGORA EU NASÇO LÁ DE FORA
AGORA MINHA MÃE É O AR
AGORA EU VIVO NA BARRIGA
AGORA EU BRIGO PRA VOLTAR

AGORA