| Começo me perguntando: o que é
mais interessante escrever no meu relato? E ainda: o que eu quero que
as pessoas saibam do meu processo? Chego a conclusão de que gostaria
de compartilhar alguma coisa inteligente e admirável mas aceito
o fato de que estamos trabalhando com o feio, com o bobo e com aquilo
que não se encaixa e me permito revelar tudo de ruim e que não
deu certo nessa primeira etapa.
Antes desse processo eu já tinha entrado em contato com a técnica do palhaço algumas vezes e mesmo assim ainda não se tornou orgânica, ou prazerosa, a utilização do pequeno nariz vermelho. Eu sou super alérgica a qualquer coisa e usar a máscara do palhaço faz meu nariz escorrer e meus olhos lacrimejarem, o elástico aperta minha cabeça e o formato aperta meu nariz de batata. Resumindo: eu não gosto daquele pequeno pedaço de plástico vermelho em forma de nariz de palhaço. Quando convidamos a Silvia eu sabia que ela era palhaça e esse era o “barato” dela, mas confiei que trabalharíamos também coisas de bufão e de mimeses corpórea. Trabalharemos, mas o ponto de partida foi o palhaço. A idéia foi buscar a nossa sombra, o nosso feio, aquilo que não se encaixa dentro de nós a partir da técnica do palhaço. No começo, pela minha falta de amor pelo nariz, eu fiquei brigando com minha dificuldade e não consegui produzir muita coisa. Nas minhas anotações de ensaio aparecem muitas vezes frases como: Eu odeio isso. Não tenho a mínima graça. Está muito difícil. Um dia a Sílvia deixou o uso do nariz optativo. Um novo mundo se abriu para mim! Meu nariz não escorreria mais e eu não seria mais a personagem que anda com um rolo de papel higiênico embaixo do braço! Mas daí eu percebi que minha dificuldade não tinha nada a ver com o palhaço e com o nariz. Isso era desculpa, eu é que não estava me permitindo buscar a minha sombra, deixar transparecer o meu lado “feio”. Mas era tarde e a intervenção já tinha chegado e eu não tinha nada (ou muito pouca coisa) para levar. No sábado da primeira intervenção eu estava muito nervosa e não sabia o que eu ia fazer quando saísse da casa de chá e encontrasse a platéia. A sensação era de completo vazio porque eu não acreditava que tinha construído alguma coisa. Mas o momento tinha chegado e precisava encarar esse desafio. Apesar das crianças terem “dominado a cena” e nós, IVO 60, não termos conseguido respeitar os espaços dos outros e tudo ter sido caótico, pelo menos foi, aconteceu. Eu tive certeza de que alguma coisa eu tinha construído e que no domingo poderia ser melhor. No segundo dia a Silvia deu a instrução de que fossemos mais receptivos, que fizéssemos menos coisas e assim tudo foi um pouco melhor. Eu saí da casa de chá no “estado” e esperei as coisas acontecerem para poder reagir. Senti tudo lento. E uma hora, não sei explicar como, eu criei uma roda e fiz uma cena (a da menina que conta a história de Jesus) para uma atenta platéia de mais de 50 pessoas. Nessa hora eu percebi por onde eu deveria ir na construção da minha “figura da sombra”. Eu me sinto mais confortável fazendo “cena” e “peça
ensaiada” mas a nossa idéia agora é outra, é
a intervenção. É um trabalho que estou aprendendo
a fazer, que é um desafio para mim. Depois dessa primeira experiência
eu me sinto preparada para arriscar de novo.
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