ceu campo limpo 3 a 4 de setembro

GOZOLÂNDIA NO CAMPO LIMPO, IMPRESSÕES DE UM VIDEOMAKER

Fui chamado pelo Grupo de Teatro IVO 60 a realizar um trabalho em vídeo, documentando e criando imagens da Gozolândia. Na São Paulo 2000, moderna, fashion, hype e cool, a minha função também ganhou o afetado nome de videomaker.
Afetação e hipocrisia são filhas vaidosas de uma geração de artistas brancos, que têm acesso à financiamentos para a produção artística, pagos com o dinheiro publico. Esses artistas ocupam uma boa fatia dos equipamentos culturais da cidade e não podemos descartar sua produção, pois apesar de muita mediocridade, devem ser observados.
Não cabe aqui afetação e hipocrisia pois o trabalho do IVO 60 é de outra natureza. A Gozolândia expõe com crueldade, ironia e humor a carne podre deste mundo de poder branco. Sim, a cor é bem importante, a cor será sempre importante enquanto tivermos memória.
A Gozolândia é podre e branca. São os brancos podres que a desfrutam, usufruem e que a representam. Os pretos podres também brincam e até se lambuzam, mas para se manterem na Gozolândia precisam vender sua alma, num processo triste e dolorido que os faz apodrecer lentamente.
Acredito que a alma branca já nasça vendida e podre e por isso muitos artistas brancos, sentindo o insuportável cheiro podre de sua alma, oferecem desde cedo o seu corpo aos urubus. Estes, por sua vez, entram, alimentam-se, bicam forte, machucam a carne e vão limpando, até a perder a cor da alma.
Ao fim da primeira apresentação no CEU Campo Limpo, um adulto negro se aproximou e teceu uma crítica interessante, disse que gostou muito da peça, considerou uma “apresentação de altíssimo nível para um grupo amador” e, por fim, disse ter se incomodado com a falta de representacao dos negros na historia de formação da Gozolândia.
Esta primeira apresentação no Campo Limpo foi especialmente interessante pois havia muitos manos e minas do Campo Limpo. Muitas ironias não foram bem recebidas, algumas piadas não colaram, um certo gosto de decepção geral quando os jovens percebem que naquela Gozolândia eles sao coadjuvantes. Dai uma luta, um embate louco e dasafiador com os atores, mais agressivo e difícil do que quando o público que protagoniza a platéia são as crianças. E isto ficou muito claro na cena final em que o personagem Sociedade improvisa no meio do público. Foi a primeira vez em que vi a Sociedade ser tão rapidamente destituida de sua energia tão agressiva e venenosa por um grupo de jovens que, beliscando e bulinando seus mamilos e seu corpo de maneira geral, desmoralizaram-na por completo.
No dia seguinte, um domingo fresco de sol e chuva, a apresentação se inicia de maneira mais humilde, mais mineira. São Pedro lá do céu manda uma chuvinha oportuna no início da peça. Nosso Pedro que não é santo, querido diretor, com elegância conduz o grupo e o público a um coreto coberto. A acústica do coreto era boa e apesar do espaço pequeno, a apresentação fluiu muito bem. O sol abriu e a agressividade foi virando brincadeira, os metaleiros, os skatistas e uns manos do basquete estavam de volta. O riso iluminado e gostoso de uma pernambucana bonita, de nome Claudia, que estava na platéia embalou meu coração.

Guilherne César - videomaker