ceu casablanca 30 e 31 de julho
“Passageiro do Brasil,
São Paulo,
agonia que sobrevivem,
em meia zorra e covardias,
periferias,vielas e curtiços,

você deve tá pensando,
o que você tem a ver com isso...”

Negro Drama - Racionais MC´s


CEU CASABLANCA
30 e 31 de julho


A ponte não é de concreto...

Desigualdade social na pele. Experimentar o abismo de uma distinção entre os seres humanos criada artificialmente pelo dinheiro. Estranhar-se mutuamente por causa da origem.
Sentimentos de classe. Rir ou chorar pela condição do outro. Enaltecer ou esnobar o outro. Orgulhar-se ou ter vergonha de si próprio.
Um guia de ruas na mão e um ideal na cabeça. O guia cai no chão, denunciando os forasteiros. O ideal tá dentro da cabeça, ninguém vê. Então resta mesmo é a carcaça de “playboy” pegando o guia no chão, pateticamente. Vergonha de si.
Ninguém escolhe a classe social em que nasce, mas pode escolher defendê-la ou traí-la. E não é fácil notar a olho nu qual a opção escolhida. Nota-se a olho nu roupas, sapatos, pele, cabelo.
Então você pode tentar o seguinte: trocar suas roupas e sapatos habituais por um figurino, colorir a pele com maquiagem, arrumar o cabelo de um jeito estranho. Só pra confundir o olhar de quem te olha. E ganhar tempo. E ganhar espaço. E no tempo e no espaço de uma apresentação de teatro destruir a barreira de classe que separa e construir uma ponte entre os ideais que unem.
Destruir uma barreira e construir uma ponte em 50 minutos não é fácil. Suor e lágrimas. Os ensaios já duram mais de um ano, realizamos a primeira apresentação a semana passada, mas sabemos que ainda há muito trabalho. Mudanças de última hora na dramaturgia e muita discussão pra decidir o melhor espaço do CEU pra fazer a peça.
Polêmicas: fazer ou não fazer no sol? Fazer ou não fazer entre as quadras e a pista de skate? Ao final, todos concordaram que tínhamos que dar opção aos atletas: quem quisesse, se deslocaria pra assistir. Apresentar exatamente onde eles praticavam suas atividades era como obrigá-los a assistir... mas ao mesmo tempo, o que nos atraía nesse espaço das quadras era o fato de que seria visível para diversas janelas da vizinhança. O que nos fez pensar sobre a arquitetura dos teatros dos CEUs. Não precisaria necessariamente não haver o teatro tradicional italiano, mas seria tão bacana se houvesse um teatro de pedra ao ar livre....
No entanto, muita gente nos pergunta quase com raiva por que não fazemos dentro do teatro. Diz a lenda que teve até gente que foi embora quando soube que seria do lado de fora....
Mas o céu estava tão lindo e azul do lado de fora e este CEU era lindo também. Morrinho, laguinho e pedras. Piscina funcionando, mais gente circulando. Gente assistindo de toalha na cintura ! Gente assistindo de skate na mão! Faxineiras que passavam pararam pra assistir. Seguranças que vigiavam pararam pra assistir.
Por que não fazer do lado de fora?


Ana Flávia Chrispiniano - atriz