parque guarapiranga 02 e 03 de setembro


De volta a zona sul. Propus fazer a produção do Parque Guarapiranga porque fica a uma marginal de distância. Perto de alguns lugares onde trabalhei. Tanto ao CEU quanto ao mar, Cidade Dutra, Grajaú, Interlagos e os outros lados mais próximos da Trama, Transamérica, Teatro Alpha e até meu colégio de menino “Nossa Senhora do Morumbi”. Talvez o bairro em que se veja a maior desigualdade social na cidade, mas que se reúne no estádio harmonicamente sobre a bandeira do meu time, o São Paulo.
O parque é como um circuito de caminhada com uma guia rebaixada que desce para a represa. A primeira sugestão de apresentação era o pequeno palco elevado, todo cercado por brinquedos do “playground”. As quadras onde os ‘manos’ jogavam estão estrategicamente ao lado da portaria e separadas do resto do parque.
Qual seria o local ideal para apresentarmos? Um largo isolado, um palco espremido pelas crianças, uma grama quase virgem que se escondia na encosta ou um lajeado com banquinhos?
Pensando na circulação, decidi pela última opção e caberia ao grupo escolher entre os bancos ou nossa estética. Somos rústicos demais pra deixar a platéia sentar em banquinhos. Afinal, não estamos no Teatro Alpha.
Chegamos no sábado, eu um tanto virado e cansado enquanto o tempo sugeria uma reviravolta. O sol brilhava, mas a previsão era de chuva e parece que o público do parque acreditava mais nas previsões da televisão que em seus próprios olhos.
Pouquíssimas pessoas circulavam e resolvemos ocupar a tal grama até então virgem que sugeria um cenário mais realista pra nossa apresentação. Vamos “descobrir” esse parque com nossas caravelas e ver ao lado todo horizonte sem janelas. A represa e a natureza davam o tom de uma chegada colonial. A única questão é que dessa vez, parecia que não teríamos nativos pra apresentar nossa peça.
Enquanto alongava-me na grama, solitário, questionei nosso itinerário por esse parque. Quem estaria nele? Quem pediu para nós estarmos lá? Não era melhor que o público fosse aos artistas e não o contrário? E pior, e quando os artistas vão ao público e encontram apenas mato?
Perdido em meu pensamento mal percebi o momento em que uma platéia silenciosa aproximou-se na hora marcada e postou-se em nossa frente. O aquecimento alongado, atrasado e de repente tínhamos público ao nosso lado, querendo ouvir as promessas de nossos candidatos.
Então vamos que enquanto houver público o show tem que continuar. O show tem que dialogar e interagir com quem está por vir. Às vezes parece pouco, mas no dia seguinte um tanto rouco você se recupera se a platéia se multiplicar. E sai satisfeito com os confetes e serpentinas que legiões de meninas querem guardar de recordação. Mais uma vez cumprimos nossa “missão”.
Tem gente que ainda acha que fazer teatro de rua é falta de opção. Que enquanto não temos teatro rumamos pelo espaço sobrevivendo de chapéu. Pois quem sustenta o IVO 60 é a cabeça. Eu pensei que vamos a esses espaços por mistura da vontade de revolução e ranço cristão. A isso tudo você pode chamar de opinião. Construída em uma cidade dividida, em que parece que minha sina é ser secretário de cultura de algum otário e administrar a região.
Ainda bem que eu não acredito em missão, missa e sina e sei que o destino é só a máscara desbotada que usa a sociedade em parques por toda cidade. E que se circulamos é por vontade, por acreditar não em crença, mas na potência que um simples encontro pode ter. Até mesmo em um dia frio.

Pedro Granato, diretor deste teatro .