| parque da juventude | 19 e 20 de agosto |
ZONA NORTE
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As dificuldades no agendamento geraram grande expectativa sobre como seríamos
recebidos para a apresentação. Mas só para acentuar as
contradições desta vida, a equipe de segurança foi extremamente
solícita, dispondo um carrinho elétrico para transporte de nosso
cenário e uma sala para armazená-lo de um dia para o outro.
A principal seqüela do diálogo ruim com a administração
foi a questão do espaço para a apresentação.
O local inicialmente escolhido por nós ficava numa área do parque
denominada “esportiva”, onde estão as diversas quadras,
half, lanchonete, e a maior concentração e circulação
de pessoas no parque.
Contudo, a administração limitou nossa escolha a uma outra área,
um amplo gramado repleto de morros e algumas árvores esparsas, entrecortados
pela pista de caminhada e ciclismo. Um lugar bastante ermo, ainda mais num
dia nublado e frio como estava o sábado. Mas em meio à ameaça
de cancelamento da apresentação, achamos mais prudente ceder
neste ponto e focar a conversa em garantir que a peça acontecesse.
Na área determinada, tivemos dificuldade em encontrar um bom espaço,
e nossa opção foi pelo “menos pior”, onde havia
um “fundo” de árvores. Contudo, era um local entre os morros,
uma espécie de “vale” onde ficávamos muito escondidos
em relação às áreas mais movimentadas do parque.
Além disso, o local onde imaginamos formar a roda era uma mistura de
terra e cascalho, e as pessoas foram naturalmente se acomodando no morro gramado
que estava diante do cenário, formando uma espécie de arquibancada
frontal à encenação.
Isso deixou o público mais distante e, somado às condições
climáticas, tornou a apresentação “mais fria”
do que de costume, em todos os sentidos.
Dois meninos de bicicleta passaram algumas vezes pela cena, e pararam no meio
dela. Foram “advertidos” com cartão vermelho pelo “juiz”
Nascimento, e passaram a tomar mais cuidado.Um disse ao outro: “Ô,
meu, sai daí que a gente tomou cartão!”.Foi interessante
vê-los aprender a respeitar o espaço cênico a partir do
respeito à convenção do cartão vermelho do futebol.
E do respeito à convenção do próprio jogo teatral,
uma vez que não estávamos em campo...
No domingo, o tempo estava bem melhor. Logo, o parque estava mais cheio.
Decidimos experimentar outro espaço: o alto do morro gramado, onde
podíamos ser vistos com mais facilidade e formar a costumeira roda.
Contudo, o fato de não estarmos amparados por um “fundo”
dificultava a acústica e a concentração do público.
Ainda assim foi uma escolha de espaço mais bem sucedida que a do dia
anterior.
Uma surpresa: a candidata Gardenice venceu as eleições! Foi
a segunda vez que isso aconteceu em meio a inúmeras apresentações
onde venceu Dona Mama. Desta vez já estávamos mais preparados
do que na primeira, em que ficamos um pouco desconcertados em cena.
Ficou a questão: qual a conjuntura em que vence Gardenice, nossa candidata
mais radicalmente conservadora? Primeiro, venceu em um acampamento do movimento
sem-teto. Depois, num parque da Zona Norte erguido sobre a tragédia
dos 111 presos (ou mais). Onde será sua próxima vitória?
O fato é que Gardenice sentiu-se muito forte sobre a terra jogada sobre
os mortos do Carandiru, de onde ainda se vê uma cadeia enquanto se passeia.
Ana Flávia Chrispiniano
PS:O administrador do parque assistiu parte da apresentação, em pé, e entre um ou outro telefonema no celular.




