Minha relação com o Parque da Luz começou quando fui pendurar
nossas faixas avisando o público freqüentador de que nossa peça
“Gozolândia – uma farsa democrática” lá
seria apresentada na semana seguinte. Antes, havia estado no parque duas ou
três vezes, me lembrava bem do visual, das árvores antigas e de
coreanos jogando badminton. Mas ainda não tinha me relacionado profundamente
com a rotina do parque e seus freqüentadores.
Primeiro, fui na administração, uma construção bastante
rústica, de madeira, que mais parece uma chácara (o parque é
antigo, de 1825), e contrasta com a imagem padrão de um espaço
burocrático. Fui muito bem recebido pelas pessoas que lá trabalham,
do vigia ao administrador. Lembro que estava com alguma pressa para “resolver”
a questão das faixas, porque no mesmo dia teríamos apresentações
no Parque do Ibirapuera. Porém, a pressa era inimiga da perfeição
do Parque de Luz. Para me inserir de fato naquele ambiente, eu tinha que deixar
de lado o stress “urbanóide” e me entregar ao ritmo daquelas
pessoas. E foi o que fiz.
Seu Messias propôs que fizéssemos o trajeto de trator. Depois de
alguns minutos de espera e outros engasgos na hora de ligar, o trator ficou
pronto. Era um trator pequeno, que puxava um carreto, no qual fui sentado com
seu Messias, as faixas e a escada. A cada mudança de marcha, caímos
pra trás por causa do tranco. As pessoas do parque olhavam pra gente,
e eu olhava pra elas.
O parque era freqüentado por jovens, famílias, casais, mas certamente
quem mais me chamou a atenção foram os senhores solitários
que caminham e descansam nos bancos do Parque da Luz, em busca de tranqüilidade.
Tranqüilidade e sexo.
Depois de “resolver” a questão das faixas, me despedi e voltei
na semana seguinte, dessa vez, com todo o IVO 60, para apresentarmos a peça.
Muitos dos mesmos senhores estavam no parque, possivelmente ocupando os mesmos
bancos. Nesse dia, foi mais fácil notar a prostituição
característica do parque. Muitas senhoras e algumas meninas andando pelo
parque, oferecendo companhia para os solitários senhores. Segundo estatísticas,
é um dos lugares de prostituição mais barata da cidade.
Segundo critérios de um funcionário do parque, as moças
mais jovens conseguem lucrar um bom dinheiro, porque os senhores já chegam
“babados” no quartinho alugado na frente do parque a R$6,00, o que
permite muitos programas no mesmo dia. Mas mesmo as mais “gastas”
(sic) conseguem seu dinheiro, porque os senhores ficam tão “mamados”
(sic) que acabam pegando a primeira que se oferece.
No sábado, houve um fato engraçado, relacionado a comunidade coreana
que joga badminton todas as manhãs no parque, próximo ao coreto,
onde apresentamos a peça. Quando chegamos, havia um homem montando a
quadra bem no lugar onde teoricamente tínhamos pensado em nos apresentar.
Embora seu Messias tenha oferecido pedir para o sujeito se retirar, já
que tínhamos “prioridade” e eles já tinham jogado
de manhã, nós preferimos não atrapalhar a rotina daquelas
pessoas e nos apresentar num outro espaço, a Casa de Chá, bem
próxima dali. O homem, porém, depois de montar duas quadrinhas,
puxou sua raquete, treinou alguns saques e começou a recolher tudo. Não
conseguimos descobrir se ele só estava treinando ou se seus parceiros
não apareceram, porque ele mal falava português. O fato é
que, depois de dez minutos, ele acabou se retirando e a apresentação
ocorreu no espaço planejado.
No domingo, um senhor, provavelmente embriagado, sentado em seu banco, nos olhava
sorridente até que algum membro do grupo acenou pra ele. Emocionado,
ele acenou de volta, sorridente, perguntando em alto e bom som “Por que
eu nasci pobre, meu deus, por que eu nasci pobre?” repetidas vezes. A
cada pessoa que passava ele acenava e fazia a pergunta, rindo e chorando ao
mesmo tempo, esperando que acenassem de volta. E acenavam.
Nos dois dias, ensolarados e muito agradáveis para um passeio no parque,
juntamos um belo público, que estimo em aproximadamente 450 pessoas no
total. Esse público participou de forma bem divertida da peça
e mais uma vez, elegeu a popular D. Mama como prefeita da “Gozolândia”.
O que correu de forma muito bacana também foi a gravação
de nosso vídeo, depois da peça, com depoimentos de pessoas do
público, vestidas como políticos propondo soluções
e dando depoimentos sobre a situação política do país.
Se esse vídeo conseguir, de alguma forma, retratar a peculiaridade daquelas
“personagens” que encontramos no Parque da Luz, será a merecida
cereja do bolo para o excelente final de semana que lá tivemos.
Felipe Sant´Angelo
Vão-se os dentes, ficam as perguntas
Olho e me pergunto, tentando encontrar: o que as pessoas aqui têm em
comum?
São muitos sozinhos...
São muitos que perderam os dentes...
São muitos que perderam o juízo...
E encontraram, talvez, no seu jeito tão próprio de ser, o refúgio
para quem está à margem, em pleno centro.
Gente que tem marcas.
Que tem história.
Tudo lá dentro, borbulhando no olhar.
Gente panela de pressão.
Que quando a gente oferece uma câmera, corre e se aglomera em torno,
com vontade.
Um senhor sem dentes fala de Bertolt Brecht e da importância do teatro
e da cultura. De José Celso Martinez Correa e do Teatro de Arena.
Sobra o que dizer, falta espaço.
Inevitável a comparação com o Ibirapuera da semana anterior.
Impressão de que para quem costuma sobrar espaço, às
vezes falta o que dizer.
Um outro senhor sem dentes acenava um “tchau”, sentado no banco,
olhando as moças e coisas bonitas que a gente trazia em nossa van.
E gritava muito alto e achando graça, em ritmo musical: “Ai,
meu Deus ! Por que eu nasci tão pobre, meu Deus?!” E ria sem
os dentes.
Aquela frase repetida em alto e bom som diversas vezes, aquela ladainha, aquele
mantra ecoando pelo parque...
Entrando em nossa van e em nossos corações e em nossos cérebros...
Era como se , pelo olhar um pouco tonto, todos perguntássemos junto
com ele, num coro: “Por que ele nasceu tão pobre, meu Deus?”
Será que Deus sabe?
Será que Deus responde?
Quem responde?
Ana Flávia Chrispiniano