parque santo dias 09 e 10 de setembro
Artista de Golf

Meu primeiro contato com o Parque Santo Dias foi numa sexta-feira, uma semana antes da apresentação. Foi um dos poucos dias nesses últimos tempos de seca em que choveu. Ou melhor: caiu o mundo.
Por sorte, dava para encostar o carro muito próximo da administração. Meu carro, um pomposo Golf preto, contrastava com o ambiente de periferia. Havia poucas pessoas no parque, por conta da chuva, mas todas estavam ali concentradas naquele pequeno espaço, se protegendo dela. Precisava proteger os cartazes e as faixas da chuva, mas também queria mostrar os cartazes para quem estivesse me olhando (a maioria das pessoas ali), como que para me desculpar pelo carro de luxo e minha origem branca, playboy, algo como “sou burguês mas sou artista”, “tenho um Golf, mas quero mudar o mundo” hahaha. É foda. A velha questão da “culpa burguesa”, mesmo depois de muito discutida e questionada, acaba sempre voltando. Mas daí, quando sinto isso depois de tanto já ter refletido sobre o assunto, eu sinto culpa pelo sentimento de culpa. E assim vai.
Na hora de ir embora, ofereci carona para um sujeito que morava no conjunto habitacional ali do lado. Ranço cristão? Provável. Mas o cara não tinha como ir na chuva também. E eu um carro vazio. O fato é que no curto trajeto conversamos, entreguei uns cartazes e umas filipetas e pedi para ele divulgar a peça. Nos dias das apresentações, no entanto, ele nem apareceu. Era apenas uma carona, afinal. Bom, mas oferecer carona não transforma a realidade social. Nem tem essa intenção. E o teatro?
No ensolarado final de semana seguinte, o lugar que eu tinha escolhido para a apresentação no dia da chuva não parecia a melhor opção. Muita criança, muito barulho, muita dispersão. Rodamos, rodamos, rodamos, mas percebemos que aquele espaço, embora não muito bom, era o melhor possível.
Foi quando conhecemos Clodoaldo, administrador do parque, muito gente boa. Sugeriu que usássemos cadeiras. Hesitamos, porque não víamos com bons olhos esse tipo de “recurso”. Afinal, teatro de rua é teatro de rua. Feito para não ter cadeiras. Porém, a apresentação mostrou que colocar as cadeiras era a melhor coisa a se fazer, e essa opção foi ainda mais radicalizada no dia seguinte, com alguns colchonetes para as crianças no chão. Durante a peça, nem fizemos o trajeto inicial que geralmente fazemos. Apelamos para a “sacralização do espaço cênico”, o que facilitou para o público nos assistir, o que, afinal, era o grande objetivo de estarmos lá. Obviamente, a estrutura participativa e infame de “Gozolândia” logo dessacralizou tudo de novo, e dá-lhe improvisação. Mesmo com as cadeiras, o espaço ainda era dispersivo. Mas, com uma vantagem extremamente motivadora: as apresentações foram lotadas. Acho que fomos vistos por umas 600 pessoas no final de semana.
600 pessoas por final de semana assistindo “Gozolândia – uma farsa democrática”. De graça. Em parques públicos.

Felipe Sant´Angelo