
Estreamos nosso primeiro infantil nos dois CEUs que nos apoiaram e cederam
salas de ensaio para criação da peça : CEU Perus e CEU
Cidade Dutra. Não só salas de ensaio, pois foi nesses CEUs que
fizemos observações das crianças, professores, improvisações
e até demos as últimas marteladas no cenário.
A primeira apresentação, no CEU Perus, veio logo após
um feriado em que constatamos um problema na estrutura do cenário.
Pois foi quase com martelo na mão que abrimos a cortina. O cenário
ficou pronto no último instante pra encararmos o público.
Resolvido o cenário, no segundo dia, no CEU Cidade Dutra, foi a vez
da iluminação nos dar o susto. Espremidos entre os produtores
e nosso iluminador, atrasamos 10 minutos e encaramos a criançada. Uma
correria.
Depois começamos a nos acostumar com a dinâmica da montagem das
coisas e o clima foi ficando tranqüilo. Das criticas nos últimos
instantes ao reconhecimento das qualidades que já tínhamos pudemos
nos concentrar mais em nosso principal foco: o público.
É impressionante o apelo que o RAP cantado pelo meu personagem Tommy
tem com as crianças. È um “fenômeno” típico
de uma classe social. Que os jovens da periferia gostam de RAP, já
é sabido, mas que centenas de infantes de 1ª a 4ª série
levantariam da cadeira gingando ao reconhecer o ritmo, isso é impressionante.
É muito legal ver como eles se identificam com um estilo de música
marcadamente de protesto e feito por gente de sua classe social.
Saindo da última apresentação da semana, uma questão
me veio à mente. Nos CEUs, as crianças têm o constante
hábito de “dedar” onde o Denis está escondido. Enquanto
eu arrumava o cenário vi umas crianças saindo do banheiro e
a professora repreendia-as fortemente por alguma coisa que tinha feito. Nessa
hora, é claro, o menino dedou seu colega e tentou se isentar do castigo.
Essa é uma questão que tem foco na peça, o abuso de autoridade
das professoras contra as crianças sapecas. Fazendo paralelos, já
que nossa colonização nunca me foge à mente, fico pensando
na força do aparelho repressor que já existe desde a infância.
Em como essa cultura da censura tem a ver com a formatação das
crianças para viverem em uma sociedade que não tem espaço
pra gente de sua classe. A não ser aceitando ordens e levando castigos.
Essa reflexão despretensiosa (ou não) me fez relacionar isso
com nossas cadeias, o crime organizado, o papel da polícia. Acredito,
e isso é um chavão político, que qualquer transformação
começa na educação. Que a raiz da liberdade e da submissão
está sendo plantada a cada dia em frente aos nossos olhos. Nossa tentativa
é interagir e dar voz às crianças. Ajudá-las a
se apropriarem dos teatros. Agora qual será o nosso “poder de
fogo”?
Falei!
Pedro Granato diretor e ‘Tommy’
Após a apresentação foi feito um trabalho de "animação
teatral" misturando alunos e professores em jogos teatrais. É
mais um passo na pesquisa do grupo de romper com a espetacularizada relação
palco-platéia, trazendo o público pra cena e buscando tratar
de nossos temas onde eles são mais latentes.
Na nossa história um menino foge da peça. Às vezes é a peça que foge do IVO 60.
Nós queremos, enquanto “grupo de pesquisa em teatro”, descobrir as fronteiras entre o teatro épico e a improvisação. E isso é uma pesquisa pra vida toda, como nós mesmos dizemos. Essa temporada nos CEUs trouxe tantas perguntas que uma vida será pouco para responder.
Valorizamos muito a participação espontânea do púbico com a dessacralização da relação palco-platéia. Mas até onde a história é mais importante que a platéia? Qual o limite da intervenção do espectador? Ele existe?
As crianças sempre participam da peça, e é isso que queremos. Mas ao mesmo tempo precisamos de determinada atenção para contar nossa história. Como chegamos a atenção sem passar pela opressão? Estamos descobrindo os caminhos de um silêncio espontâneo. O silêncio do prazer, de ficar quieto para apreciar a peça.
Trabalhar com uma obra de arte em constante mutação permite que a partir da experiência transformações sejam feitas. Na apresentação do CEU Parque São Carlos estreiamos uma nova cena final. Percebemos que a encenação não dialogava o suficiente com nosso desejo e assim testamos, e aprovamos, uma nova cena. Não encaramos a peça como um produto bruto e sim como algo móvel que a partir da experiência ganha novos ares.
Mariana Leite, que interpreta a ‘Tia Ucha’
PS: Nós tivemos que cancelar a apresentação do dia 17 de maio. O PCC atacou alguns ônibus, alguns postos policiais, bancos ... Nem todos os meninos podem fugir da peça de final de ano de suas escolas para dizerem que alguma coisa não está certa.
O céu é o limite ?
Este momento da temporada do “Menino” pelos teatros dos CEUs
me fez lembrar e re-significar uma frase recorrente sobre o fazer teatral:
“Nenhum dia é igual ao outro”.
Do ponto de vista da cena e da relação com os espectadores,
é indiscutível. As reações das crianças
variam sempre, e são cuidadosamente observadas e avaliadas pelo grupo
após cada apresentação. Mas o que é curioso e
novo para nós, que na maioria das vezes trabalhamos fora do edifício
teatral, é que o espaço é praticamente o mesmo em todas
as apresentações! Os teatros dos CEUs são muitíssimo
parecidos, quase iguais uns aos outros.
Isso pode parecer uma bobagem, mas é uma percepção que
estimula uma série de reflexões... Imagine você: o que
pode significar ir a 21 espaços diferentes, mas iguais?( Ou iguais,
mas diferentes, se preferir). São 21 bairros, cada um com suas características,
mas se você conhecer apenas o CEU, pouco saberá de tais peculiaridades.
Comecei a pensar nisso quando fomos apresentar no CEU Paz, no Jardim Paraná,
região da Brasilândia, na ZN. Atuo neste CEU como artista-orientadora
do Projeto Teatro Vocacional e, além disso, é o CEU mais próximo
da minha casa.
Ali, o teatro também era igual a todos. Mas completamente diferente.
Também têm se diferenciado os 12 CEUs em que havíamos
trabalhado em nosso projeto anterior em que, além das apresentações
de “Gozolândia - uma farsa democrática”, produzimos
vídeos e realizamos oficinas.
O ponto onde quero chegar é o seguinte: é extremamente positiva
a rede estabelecida pelos CEUs. E é um sonho realizado poder circular
com nossa peça e nossa atividade pedagógica por esta rede, atingindo
cerca de 800 crianças por semana, e seus professores, por toda a cidade.
O teatro tem um fim em si mesmo. Mas diante dos limites inerentes à
nossa ação, não consigo deixar de “clamar aos CÉUS”
por um trabalho de qualidade, vertical e a longo prazo em relação
à cultura.
Eu clamo por um mínimo de conhecimento e sensibilidade para responder
às necessidades da região e da comunidade onde se localiza cada
CEU.
Eu clamo por um mínimo de conhecimento e sensibilidade para a arte.
Eu clamo para que, apesar das dificuldades na formação de um
público interessado, não coloquem seguranças nas escadas
do teatro para resolver a questão.
Eu clamo para que, além de questionar a “educação”
do público, questionem a própria conduta e os conteúdos
e formas que pretendem “enfiar güela abaixo” deste público.
É o que procuramos fazer ao diagnosticar qualquer imprecisão
em atingir nossos espectadores. Realizamos mudanças e os efeitos são
notórios. Percebemos neste período, por exemplo, que as personagens
estavam um pouco “chapadas”, e precisávamos reforçar
suas contradições para tornar o final verossímil.
Percebemos também que a improvisação precisa manter a
coerência de nosso discurso. Nem tudo vale... E o limite é ferir
a essência do que queremos transmitir ao público.
Moral da história: não é tão difícil dialogar
quando se tem vontade. E cada dia é um novo dia para mudar.
Falei!
Ana Flávia Chrispiniano, que interpreta ‘Catarina’
Há pouco menos de um ano, no dia 23 de julho de 2005, estreávamos
a ‘Gozolândia’ no CEU Rosa da China, sob as nuvens mal-humoradas
e vento gritante.
A última apresentação de “O Menino que Fugiu da
Peça” nos CEUs, no dia 30 de junho de 2006, aconteceu no mesmo
Rosa da China, desta vez submetidos apenas ao sol acolhedor e uma brisa agradável.
As diferenças entre as duas apresentações não
são apenas meteorológicas: hoje o IVO conhece muito melhor a
estrutura de organização dos Centros Educacionais, a disponibilidade
do público local e as possibilidades de interação com
a platéia.
E por falar em fechamento de um ciclo, guardadas as devidas proporções,
foi uma semana exemplar.
No CEU Vila Atlântica (que teve a data remarcada diversas vezes por
motivos mais diversos ainda), os problemas com a produção local
foram vários, a exemplo da experiência no ano passado: da ausência
dos produtores à displicência dos técnicos.
Nessa última rodada de fugas do menino, a peça provou-se sólida.
As muitas alterações de encenação e outras mais
sutis de dramaturgia realizadas durante a temporada parecem apropriadas pelo
grupo: atores, técnico, educadoras.
Temos a certeza de que o espetáculo dialoga com o público, crianças
e adultos. Tudo está aberto, pode mudar, é flexível e
dialético, mas a experiência das três últimas apresentações
(mesmo com um ou outro probleminha técnico) confirma a pertinência
da peça, não como objeto ou regra imutável, mas como
discussão e reflexão.
É bastante difícil concluir os pensamentos ou responder às
questões levantadas durante essas vinte apresentações,
mas eu ousaria dizer que descobrimos algo que já sabíamos, ou
melhor, que agora sabemos, e não apenas acreditamos, que a criança
está disposta a refletir.
O público infantil – com seus coros e risadas, suas dicas e perguntas
para as personagens no meio da cena, sua incontrolável vontade de levantar
o braço para fazer perguntas ou saltar da cadeira para transformar
a situação proposta no palco – nos dá o suporte
necessário para a compreensão da intrincada relação
ator-espectador, me obrigando a perguntar se a platéia e o palco estão
mesmo de lados diferentes no teatro.
Pedro Felício, que interpreta ‘Tio Clóvis’
CEU Casablanca
CEU Campo Limpo
CEU Navegantes
CEU Três Lagos
"A zona na Sul"
A primeira coisa que me chama atenção em “O menino que
fugiu da peça” vem não da peça em si, mas do momento
do trabalho do grupo. É primeira vez que encenamos um texto (sendo
esse texto meu, além de tudo), é a primeira peça infantil,
e a primeira peça pensada para um teatro tradicional, com palco italiano
e tudo.
- O Primeiro texto:
A idéia inicial do texto surgiu há um bom tempo, mas só
a experiência com as crianças na temporada de “Gozolândia”
nos CEUs fez com que a idéia se concretizasse. O trabalho com texto
no IVO 60 é uma novidade para mim como dramaturgo e como ator.
Temos em nossas origem a criação coletiva. A papel do diretor
no grupo, por exemplo, foi uma questão que só foi realmente
bem resolvida depois da estréia de “Gozolândia”.
Por isso, embora o processo de encenar um texto seja algo mais “tradicional”,
isso veio de um jeito particular, diferente da forma como escrevo fora do
IVO 60.
“O menino que fugiu da peça” foi pensado especificamente
para o grupo. Pra nós. E teve a participação de todos
atores, na realização de músicas, nas discussões
sobre estrutura e no próprio carisma de cada um, a partir do qual cada
personagem foi gerada. Foi decisiva também a participação
dos colaboradores. Houve uma cena inteira na sala de aula criada a partir
da proposta do figurino da Tia Ucha.
- O Primeiro infantil:
A presença maciça de crianças durante as apresentações
de “Gozolândia” nos espaços abertos dos CEUs no ano
passado foi a energia de ativação para a idéia do infantil
“O menino que fugiu da peça”. Nosso grupo de bufões,
anárquicos, agora se depara com um novo público. Como mantermos
as características de nossa linguagem e ao mesmo tempo nos comunicarmos
com as crianças? Quais as reais diferenças de uma peça
“para” elas e uma peça a qual elas “podem”
ver?
Tudo isso foi respondido empiricamente, com base na experiência adquirida
com “Gozolândia”, na intuição e no bom senso.
Porém, embora escolhas tenham sido feitas, a pesquisa continua com
as apresentações, novas perguntas e respostas surgem durante
o processo que, provavelmente, não acaba tão cedo.
- A primeira peça para teatro:
É engraçado pensar que a primeira peça de um grupo de
teatro pensada especificamente para o palco tradicional venha apenas no quinto
ano de nossa existência.
Claro, já nos apresentamos em teatro. Mas até então,
nossas peças eram pensadas para serem adequáveis a qualquer
espaço, uma vez que nosso objetivo maior sempre foi o público
e a busca por uma melhor forma de alcançá-lo.
A motivação continua existindo. No entanto, o tema e a estrutura
da peça fala justamente de relação de poder, autoridade
entre professores e alunos durante a montagem de uma peça escolar.
O palco italiano e toda sua carga histórica, a relação
da peça com o público, são fundamentais ao conteúdo
da peça e a forma como o público apreende isso.
Além disso, desde o início pensamos não em qualquer teatro,
mas o teatro dos CEUs, na periferia, e seus 450 lugares preenchidos por um
público que até bem pouco tempo atrás mal tinham acesso
ao teatro.
Bom, toda essa introdução para chegar nas apresentações
da peça e na parte do relato que me cabe. A questão é
que foi muito bacana depois de tantas expectativas e novidades, ver que a
maior parte das coisas funcionava. Personagens, interação com
a platéia, improviso, humor, músicas. Foi bom sentir que as
nossas escolhas e objetivos funcionaram muito. E que esse público infantil,
a princípio misterioso, podia se envolver com a história que
contávamos e participar dela ativamente.
Das questões dramatúrgicas, a que se mantém é
o final. Como fazer para potencializar tudo o que foi a peça? Como
concluir? A estrutura do texto propõe uma moral avacalhada. Mas até
que ponto isso é assimilado e assimilável? Porque o fato é
que nós mesmos acabamos nos envolvendo com a moral da história,
e as coisas que dizemos têm razão de ser. Por enquanto, nossa
opção parece a mais adequada. Mas cada apresentação
é uma pesquisa.
CEU Casablanca, Campo Limpo, Três Lagos e Navegantes
No CEU Casablanca, a primeira confusão burocrática. O pessoal
da produção marcou uma atividade no teatro até meio dia
e meia. Nossa peça começaria às 13h30 e tínhamos
um cenário para montar. Diálogo relevante que surgiu nesse contexto:
PRODUTOR DO CEU - Não dá pra ir adiantando? Os atores podem
ir se aquecendo ali na sala Multi-uso e o pessoal da cenotécnica monta
o cenário.
IVO 60 – Os atores são os cenotécnicos.
Nessas apresentações, a dinâmica de montagem de cenário
e luz já estava muito mais segura, o que permitia até aquecer
antes da peça (uau!).
No CEU Três Lagos um público mais jovem do que estávamos
acostumados, pré-escola. Crianças fofíssimas com cara
de clown (na verdade, os clowns que fazem cara de criança) vendo a
peça, envolvidas. Mas, pela atividade que realizamos depois, percebemos
que a idade é um pouco baixa demais. A peça não é
pensada exatamente para eles, e a relação perde um pouco.
No CEU seguinte, pessoas de quinta série. Aí, há mais
cumplicidade com o menino Dênis que foge da peça, personagem
que faço. Pela primeira vez, não me dedaram (quer dizer, um
ou outro dedam, mas não é aquela massa carnívora gritando:
“Ele tá ali! Ali!!! Pega!!!). Mas daí, eles eram mais
descrentes com partes musicais de envolvimento. Com eles, o final não
funcionou tanto (até então, as crises que tínhamos eram
mais nossas do que do público). O que trouxe, na verdade, questionamento
pra peça e nos fez preparar mudanças para o CEU seguinte.
Pela experiência que tivemos com “Gozolândia”, percebo que no atual momento, mesmo tendo um texto fechado, nossa peça está quase madura. Já temos uma excelente relação com o público, de jogo (temos a platéia na mão até nos momentos de maior zona) que é o mais importante. Agora, é momento de um aprofundamento formal, lapidações finais para a peça se tornar tudo o que sabemos que ela pode ser.
Felipe Sant´Angelo, dramaturgo e 'Dênis'
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Ana Flávia Chrispiniano |
| Felipe Sant'angelo |
| Mariana Leite |
| Pedro Felício |
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Pedro Granato |
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