| ceu paz | 1 e 2 de outubro |
| Rua da Paz, s/n° - Brasilândia - Z/N | |
CEU Paz
Amilcar Ferraz Farina, diretor musical do IVO 60
Coube a cada um dos integrantes do grupo IVO 60 escrever
sobre a experiência da apresentação da peça Gozolândia
– uma farsa democrática, em um CEU (Centro Educacional Unificado)
diferente. O meu relato é sobre a apresentação no CEU
Paz, que fica no bairro da Brasilândia, na Zona Norte de São
Paulo, região na qual moro há mais de 20 anos.
Como estive presente em quase todos os 12 CEUs por onde a peça passou,
pude observar as características sempre presentes na paisagem urbana
das cercanias dos CEUs. Primeiro, a revelação de uma São
Paulo estendida, que se debruça ao norte na Serra da Cantareira, que
observa a oeste, de muito perto o ponto mais alto do perímetro urbano
– o Pico do Jaraguá, que extrapola o eixo da marginal Tietê
rumo a Guaianazes no extremo leste, e beira a represa de Guarapiranga ao sul
da Cidade. São Paulo é realmente uma cidade grande. E muito
desigual.
Todos os CEUs se encontram em regiões da periferia. No CEU Paz não
é diferente. E quando nos aproximamos do CEU, vindo do Centro de São
Paulo, podemos observar a diminuição da densidade de prédios,
a transformação gradual dos sobrados de alvenaria com acabamento
em casas de tijolos, e o amontoar crescente destas casas pelas encostas dos
morros. E em alguns casos, da substituição destas casas por
casas de madeira e papelão.
O CEU Paz, assim como os outros se localiza numa pequena elevação,
incrustado na periferia. E funciona como um espaço comunitário
no fim de semana. As crianças usam as piscinas, brincam no parquinho,
os meninos andam de skate e pais e mães circulam despreocupados.
A peça apresentada pelo IVO 60, pensada para o espaço aberto
e com uma linguagem popular sempre atraiu a atenção das crianças
que se encantavam rapidamente com o jogo de “faz de conta”. A
mensagem de responsabilidade política e social se traduziu numa apresentação
com momentos de participação do público, por exemplo,
como na escolha do “presidente da Gozolândia” e posteriormente
nas votações de “impeachment”.
Uma das coisas que mais me chamou atenção foi a carência
das pessoas que assistiam a peça. Esta foi minha interpretação
para uma comportamento que se manifestava por exemplo, na votação
inequívoca do público, em todas as apresentações
por onde passou a peça, na “candidata” que se apresentava
com um discurso mais afetivo - Dona Mama. Além disso, a euforia das
crianças que acompanhava o aparecimento da mala do “mensalão”,
recheada de dinheiro falso. Muitas crianças neste momento se atiravam
e se penduravam nas roupas do ator Felipe Sant’Angelo enquanto ele desfilava
por entre o público. Esta carência também se manifestava
no envolvimento do público, na cena que representava uma típica
política assistencialista e que era protagonizada pela “Dona
Mama”.
Por ser apresentada em espaço aberto, a apresentação
de domingo do CEU Paz contou com a colaboração de São
Pedro, que esperou a última cena para derramar a chuva no público
a procurar abrigo. Nasceu aí também uma tensão subjacente
que dialogava com os atores em olhares rápidos e nervosos para o céu
completamente nublado. Os atores sempre tiveram o espírito livre para
as improvisações o que colaborou para o envolvimento do público
e para situações cômicas e espontâneas.
Moral: Por fim a peça sempre acontece, mesmo com todos aqueles famosos
“imprevistos previsíveis”, o público também
entra em cena e dá a impressão de que uma janela foi aberta
aonde antes não havia nada.





